Vida de Pixinguinha emociona Movimento de Moradia da Região Sudeste

Exibição do longa metragem sobre a vida de um dos maiores músicos brasileiros contou também com apresentações de dança do grupo Mulheres da Casa

Texto e fotos: Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá (www.mediaquatro.com)

É duro viver sem ter a certeza de um teto sobre a cabeça, de um lar que você sabe que é seu e que ninguém vai tirar de você. Pixinguinha – Um homem carinhoso, de Allan Fiterman e Denise Saraceni, que conta a história do genial compositor e arranjador, um dos inventores do chorinho, traz na trama também esse drama. Na história, a esposa do músico, vivida na tela por Taís Araújo, se desespera ao ver o primeiro talão de promissórias da casa, e festeja, muitos anos depois, a quitação do financiamento. No papel título, o ator Seu Jorge mostra bem a angústia de conseguir dinheiro para as prestações durante crises econômicas e empregos instáveis.

público lotou a sede da Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste

Na região sudeste de São Paulo, no entanto, a luta não foi para pagar financiamentos com juros extorsivos, mas para se organizar e conquistar políticas públicas que viabilizassem a posse dos terrenos e a construção, em regime mutirão ou autogestão, de milhares de casas desde a prefeitura petista de Luiza Erundina nos anos 1980. Foi assim que nasceu a Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste, que articula 10 entidades e cuja sede, no Jardim Savério, recebeu no último dia 22 de abril o Projeto CineB Solar com o filme sobre a vida de Pixinguinha.

O filme mostra a história de Pixinguinha desde a infância apresentação de flauta

Foi uma festa! Antes e depois da exibição do filme, o grupo de dança Mulheres da Casa, que tem um trabalho social incrível na Casa de Cultura Chico Science fez lindas apresentações e lideranças locais tiveram, claro, a oportunidade de falar. Quem também esteve presente foi o ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Luiz Cláudio Marcolino, que foi o primeiro apoiador do Projeto CineB, quando começou há 15 anos, e a vereadora pelo PT Juliana Cardoso, de longa trajetória de luta na região.

Todos e todas ficaram animados com a dança das Mulheres da Casa

O coordenador do CineB Solar, Cidálio Vieira, agradece a presença do público e abre o microfone pras lideranças

Juliana Cardoso, terceira da esquerda pra direita, Luiz Cláudio Marcolino, ao centro com a caixinha de pipoca, e ao fundo nosso pipoqueiro Seu Antonio, posam na sede da AMMRS com os ativistas e dançarinas

Um dos depoimentos mais emocionantes depois do filme foi o da Dona Olga Queiroga, uma chilena que está há 62 anos no Brasil e é querida por toda a comunidade. Além de fazer parte da Associação, ela também é coordenadora de um movimento de moradia para idosos no centro da cidade, no bairro do Pari. Sempre ajudando a organizar a população para conquistar políticas públicas.

Dona Olga é uma referência no movimento de moradia da região Sudeste, onde mora, e de toda a cidade

“Aqui o povo é muito carente de tudo, de tudo, especialmente cultura. É muita falta de informação. É muita falta de recreação pra criança, pra juventude, para os casais. Então essa iniciativa do Sindicato, que eu conheço o trabalho há mais de 20 anos, especialmente com idosos, da Dona Glória, é maravilhoso, tem ajudado muito e o CineB Solar faz parte disso”, diz dona Olga. “O Brasil é o melhor país do mundo pra se viver, mas muitas vezes os brasileiros não veem. Por isso os movimentos sociais são importantes. O movimento de moradia, por exemplo, é uma escola cívica. Você aprende sobre tudo. Eu aprendi sobre a Constituição, as leis, os direitos. Só assim a gente conquista políticas públicas, mas se não cuidar, perde. Hoje tá muito difícil, a prefeitura não faz nada, tem muito vereador que não sabe como as coisas funcionam. Por isso eu, a Fátima, a Maria, estamos na batalha, aqui e também em outras regiões, como a Nove de Julho, Rua Riachuelo, Rua São Francisco, Rua Maria Paula”.

Os netos da Dona Olga também aproveitaram o filme e a pipoca

Outro depoimento importante foi do casal Benedito Barbosa, o Dito, e Dona Marluce Pereira de Araújo Barbosa, que estão há mais de 30 anos no Movimento de Moradia da Região Sudeste e mesmo antes disso já atuava organizando o povo pra conquistar a casa própria.

Dito e Marluce: mais de 40 anos de ativismo pela moradia e pela educação

“Conseguimos construir mais de 1200 unidades somente no Jardim Celeste, no regime de mutirão e autogestão, e temos outros projetos na região. Tudo começou durante o governo da nossa prefeita Luiza Erundina e teve continuidade em outras gestões do PT. Hoje temos projetos com mulheres, com crianças, com jovens e hoje foi lindo trazer esse projeto do CineB Solar, pra fortalecer nossa sede como espaço de cultura e de resistência popular. Então queria agradecer o Sindicato dos Bancários e essa parceria de tantos anos para proporcionar acesso ao cinema, à cultura”, contou Dito. “Já eu, trabalho com educação pública. Escolhi há muitos anos lutar pela educação de qualidade, como professora aposentada do Estado e atualmente ainda trabalhando como professora municipal em Diadema na formação de jovens e adultos. Esse projeto é importantíssimo. Porque assim como a gente luta pelo acesso à moradia, a gente luta pelo acesso à educação e à cultura. Esse é um direito de toda a população, é um direito de todas as comunidades, é até uma questão de autoestima das pessoas, de saber, pelo projeto, que têm acesso à cultura, à dança, de saber que pode falar sobre isso. Como professora de EJA, muitas vezes a gente já levou adultos e mesmo idosos pela primeira vez no cinema. Então, o cinema vindo para a comunidade, trazendo a cultura brasileira, trazendo histórias da nossa gente, da nossa música, dos nossos artistas, é garantir esses direitos.”

Dona Maria Barbosa, que além do movimento social trabalha também como assistente social e na Pastoral do Ipiranga, explica que a Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste articula 10 micro-regiões, fazendo reuniões periódicas para articular a luta.

Dona Maria até pulou de alegria quando soube que o CineB Solar estaria na sua comunidade

“Entre o Ipiranga e o Jabaquara, incluindo Vila Mariana, Xavier de Almeida, Arapuá, etc, cada movimento tem sua coordenação e suas reuniões específicas”, diz Dona Maria. “Eu sou coordenadora aqui no Savério e nós estamos muito felizes de conseguir trazer pra cá o Projeto CineB Solar porque é muito difícil ter atrações culturais assim. Antigamente, em outras administrações do município, a gente até conseguia. Mas agora a gente vê os idosos, os adolescentes, sem opção de cultura, de arte. Quando o Dito disse que tinha agendado o cinema, a gente até pulou de alegria!”.

A coordenadora do Movimento Sem Teto da Vila Mariana, Zulmira da Silva Santos, também moradora que construiu sua casa no sistema de mutirão autogestionado do Jardim Savério nos tempos da ex-prefeita Luiza Erundina, é mais uma que segue no trabalho de organizar a população por seus direitos.

Dona Zulmira, com a caixinha de pipoca na mão ao lado de Maria de Fátima Santos, curtiu o filme e as danças na primeira fileira

“Hoje eu tenho a minha casa, meu filho tem o apartamento dele, mas seguimos brigando com a prefeitura, com o estado, e nunca saímos do movimento, porque enquanto tiver uma pessoa sem teto e minhas forças permitirem, eu vou estar junto construindo”, afirma dona Zulmira. “Aqui ninguém ganhou nada de graça. Meu filho ainda está pagando o apartamento. Mas já conseguimos muita coisa. Já construímos o Jardim Santo André, construímos na Fazenda do Carmo, e vamos fazer muito mais porque tem terra, tem dinheiro público e tem prédio fechado no Centro e a gente vai brigar. Se tiver que ocupar, a gente vai ocupar, porque tá fechado, às vezes fazendo coisa que não deve, e tem criança na rua, mãe na rua e vamos lutar pra dar direito a teto pra essas famílias. Deus não criou as pessoas pra ficarem soltas ao relento. Todo mundo tem que ter uma casa. Todo mundo tem que ter o direito de ser cidadão, de ter um endereço e não tem como você trabalhar o dia inteiro e não ter uma cama pra você dormir, um chuveiro pra se banhar, uma cozinha pra comer… E a gente não faz casa ruim. A gente faz casa boa! É de mutirão mas é do jeito que a gente quer. Não é do jeito que qualquer um quer fazer só pra ganhar voto. A gente tem direito à cultura, ao cinema, à dança, não desse jeito que o Bolsonaro quer que vai destruir tudo. Nós vamos pra rua pra lutar por isso!”.

A professora de dança cigana e dança do ventre, Ana Lúcia de Carvalho, junto com a professora Názira, Angel e Maísa, fazem parte do grupo que dá aulas na Casa de Cultura Chico Science, no Ipiranga, há seis anos, mas se conhecem e dançam juntas há mais de 15 anos.

Cidálio Vieira com o Grupo Mulheres da Casa

“A gente acompanha o CineB antes dele ser Solar”, brinca. “É um projeto que a gente admira muito. Já fizemos apresentações outras vezes, tanto de dança como de performances, porque achamos que é um dos melhores projetos que temos de cinema nacional. Como a Casa de Cultura fica aqui perto, a gente não podia deixar de prestigiar e apresentar o Grupo Mulheres da Casa, que mais do que dança é um projeto de empoderamento da mulher e aqui temos um coletivo que também luta pela moradia, pela cultura e pelo território”.

Veja abaixo outras fotos do evento no Jardim Savério:

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