CineB promove sessão especial de “Dentro da Minha Pele” e debate sobre racismo estrutural no Sindicato dos Bancários

O Auditório Amarelo do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região recebeu uma sessão especial do CineB para a exibição do documentário Dentro da Minha Pele, seguida de um amplo debate sobre racismo estrutural, identidade racial, memória, resistência e desigualdade social. A atividade reuniu dezenas de participantes, entre bancários, representantes de movimentos sociais, integrantes do MTST, educadores, estudantes, pesquisadores, lideranças comunitárias, representantes de organizações sociais e convidados ligados à cultura e aos direitos humanos.

A sessão contou ainda com a presença do roteirista Moacir Assunção, roteirista do documentário Acordo com Lampião? Só na Boca do Fuzil!, que recentemente participou de reportagem exibida pelo programa Globo Repórter sobre o cangaço e a trajetória de Lampião.

Moacir Assunção – roteirista do documentário “Acordo com Lampião? Só na boca do fuzil!”

Antes da exibição, o público foi recebido com a tradicional pipoca distribuída gratuitamente pelo CineB. A abertura da atividade foi realizada por Cidálio Vieira Santos, coordenador do Projeto CineB; Karen Souza, secretária de Cultura, Esporte e Lazer do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região; e Val Gomes, codiretora do documentário.

Abertura da sessão com a codiretora Val Gomes (esq.), Cidálio Vieira e Karen Souza, Secretária de Cultura do Sindicato dos Bancários

Dirigido por Toni Venturi e codirigido por Val Gomes, Dentro da Minha Pele propõe uma reflexão profunda sobre o racismo na sociedade brasileira a partir de relatos pessoais, análises históricas e reflexões de intelectuais, pesquisadores e ativistas do movimento negro. O documentário aborda temas como escravidão, políticas de branqueamento, desigualdade racial, ações afirmativas, violência, pertencimento e resistência, discutindo como o racismo continua impactando a vida da população negra no Brasil.

Val Gomes (esq.)codiretora e roteirista do filme com a bancária Solange Aparecida Santos, que indicou o filme para o CineB
Karen Souza – Secretaria de Cultura Esporte e Lazer

Ao longo da exibição, o silêncio atento da plateia demonstrou o impacto das histórias apresentadas na tela. Em diversos momentos, a emoção tomou conta do auditório. Ao final do filme, o público permaneceu no local para um debate que se estendeu por mais de uma hora, transformando a sessão em um importante espaço de escuta, troca de experiências e construção coletiva.

Da esquerda pra direita Luiza SR Conceição, Lorinete Aguiar de Castro, Solimar Meneghello, Elizabeth Vieira, Maria das Graças Fernandes
Movimento Raiz da Liberdade e MTST
Dulce Lessa (esq.), SoaresDeise Teixeira Lessa e Deli Soares.

A mesa de debate foi composta por Val Gomes; Ana Marta Lima, secretária de Estudos Socioeconômicos do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região; e Júlio César dos Santos, dirigente sindical, professor e ativista do movimento negro. A mediação foi realizada por Cidálio Vieira Santos.

Mesa do Cine Debate

Logo no início da conversa, Ana Marta destacou o impacto provocado pelo documentário e a necessidade de que o desconforto provocado pelas histórias apresentadas se transforme em reflexão e ação.

“Esse documentário me trouxe muitas camadas. É um incômodo. Tem que trazer essa reflexão e a gente sair daqui com esse incômodo mesmo. Eu espero que futuramente a gente tenha um documentário retratando as mudanças, o que realmente nós chegamos a construir para estar num momento muito melhor.”

Ao relacionar os temas do filme com sua experiência pessoal, Ana Marta falou sobre os desafios enfrentados por famílias negras no cotidiano.

“Enquanto meu filho não chega em casa eu não fico sossegada. A gente sai de manhã e pensa: vou voltar? Meu filho vai voltar vivo para casa? Isso é uma realidade que ainda assola a população negra.”

A dirigente sindical também destacou que o enfrentamento ao racismo não deve ser responsabilidade apenas das pessoas negras.

“Não basta assistir um documentário desses e achar que foi apenas um bom filme. É preciso refletir sobre qual é o nosso papel para transformar essa realidade.”

Secretária de Estudos Sócio-Econômicos do Sindicato, Ana Marta Lima

Na sequência, Júlio César dos Santos trouxe uma análise histórica sobre os temas abordados na obra, relacionando o conteúdo do documentário à construção do racismo estrutural no Brasil.

“O filme nos estimula ao conhecimento. Uma das primeiras reflexões que ele traz é sobre o que significa ser negro na sociedade brasileira. E isso é muito complexo. O ser negro é um estado de espírito, uma construção marcada por muitas camadas.”

Ao abordar o período pós-abolição, Júlio destacou como o Estado brasileiro estruturou políticas que contribuíram para aprofundar desigualdades históricas.

“O Estado brasileiro formulou políticas estruturadas para a branquitude. Quando falamos de meritocracia sem olhar para esse processo histórico, estamos ignorando privilégios construídos ao longo de gerações.”

Durante sua fala, o dirigente chamou atenção para os mecanismos históricos de exclusão da população negra e para a necessidade de compreender a formação do país a partir dessas estruturas.

“Em 1911, o Brasil prometeu ao mundo que em cem anos os negros deixariam de existir. Felizmente não conseguiram. Nós estamos aqui. Existindo. Resistindo.”

Ao final de sua intervenção, foi aplaudido ao afirmar:

“Nada incomoda mais o sistema do que um corpo negro feliz. Enquanto existir vida, existe resistência.”

Julio Santos – Coletivo de promoção da Igualdade Racial do Sindicato dos Bancários

A codiretora Val Gomes compartilhou com o público detalhes do processo de construção do documentário e explicou como a pesquisa histórica foi fundamental para definir os rumos da obra.

“Eu falava: se você quer falar de Brasil, você tem que falar de racismo. Tem que falar de escravidão. A partir daí o projeto foi se aprofundando e virou esse filme.”

Val contou que uma das preocupações da equipe foi apresentar tanto os grandes episódios históricos de violência quanto os racismos cotidianos vividos por milhões de brasileiros.

“A gente queria mostrar tanto os grandes episódios de violência quanto os racismos cotidianos, aqueles que muitas vezes passam despercebidos, mas que atravessam a vida das pessoas todos os dias.”

A codiretora também destacou a necessidade de que pessoas brancas assumam um papel ativo na luta antirracista.

“As pessoas brancas precisam aprender a lidar com o desconforto. Precisam se perguntar: eu estou discordando dessa pessoa por causa da ideia dela ou porque ela é negra? Muitas vezes a resposta vai ser incômoda. Mas é necessário fazer essa reflexão.”

Val Gomes – codiretora do documentário

Ao longo do debate, diversas pessoas presentes compartilharam experiências pessoais e reflexões provocadas pelo documentário.

A advogada e pesquisadora Maria Eduarda destacou a importância da construção coletiva de pertencimento e resistência.

“A gente descobre quem é através da dor que o outro nos causa. Mas também descobre pertencimento quando encontra outras pessoas que vivem experiências semelhantes.”

A advogada e pesquisadora Maria Eduarda

Já o jornalista Etevaldo Pereira refletiu sobre a forma como o racismo opera antes mesmo do contato entre as pessoas.

“Quando você é uma pessoa negra, o preconceito chega antes de você. A pessoa olha e já cria uma ideia sobre quem você é.”

As intervenções do público abordaram temas como identidade racial, miscigenação, privilégios, educação antirracista, políticas públicas, representatividade e o papel das instituições na construção de uma sociedade mais justa. Em vários momentos, relatos pessoais emocionaram os presentes e ampliaram as reflexões propostas pelo documentário.

A noite demonstrou mais uma vez o potencial do cinema como ferramenta de educação, conscientização e transformação social. Mais do que uma exibição, a sessão do CineB se transformou em um espaço de diálogo profundo sobre passado, presente e futuro, reafirmando a importância de manter vivas as discussões sobre igualdade racial, democracia e direitos humanos.

Trailer de Dentro da Minha Pele:
https://www.youtube.com/watch?v=nEmWHpifqAE

Sobre o CineB

Desde 2007, o projeto já atingiu um público de 96.325 espectadores em mais de 792 sessões gratuitas realizadas em comunidades e universidades de São Paulo. O CineB percorreu cerca de 300 bairros da cidade de São Paulo e 24 cidades fora da capital.

Ao longo destes 19 anos, o projeto criou o Selo CineB do Cinema Brasileiro, com quatro DVDs reunindo 18 curtas-metragens selecionados, além de promover o Prêmio CineB do Cinema Brasileiro, homenageando 257 entidades e 193 diretores.

Até hoje, já foram exibidos 189 longas-metragens e 132 curtas-metragens, além de diversas pré-estreias exclusivas. Durante a pandemia, o CineB também desenvolveu iniciativas como CineB On-line, CineB na Janela e CineB Autorama, garantindo acesso ao cinema mesmo durante o período de isolamento social.

Veja as fotos da noite memorável

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