Sessão exibida em 23/09/2026
Fotos e texto: Thaís Nozue

O CineB retornou à Brasilândia na noite de 23 de setembro para mais uma sessão no CIEJA Professora Rose Mary Frasson. Cerca de 100 pessoas participaram da atividade, que levou à escola o documentário “Anatomia do Caos” e abriu espaço para reflexões sobre a pandemia, memória, educação e o papel do cinema na compreensão de acontecimentos recentes da história brasileira.
Foi a segunda vez que o CineB realizou uma sessão no CIEJA, localizado na Rua Jitauna, 30. A parceria com a instituição reforça uma proposta que faz parte da trajetória do projeto: aproximar o cinema brasileiro de públicos diversos e transformar a exibição em um espaço de encontro, formação e debate.
A sessão anterior realizada no local também pode ser relembrada no site do CineB: CineB no CIEJA Professora Rose Mary Frasson.
A programação começou com a recepção do público e a tradicional pipoca preparada pelo Seu Antônio, desta vez utilizando a própria cozinha da escola. Aos poucos, estudantes, professores, educadores e integrantes da comunidade ocuparam o espaço para acompanhar a exibição.






A abertura foi conduzida por Cidálio Vieira Santos, coordenador do CineB, ao lado das coordenadoras Soraia e Ana, representantes do CIEJA. O encontro também contou com depoimentos previamente gravados de Neiva Ribeiro e do deputado estadual Luís Cláudio Marcolino.

Antes do início do documentário, o público recebeu ainda uma mensagem da diretora de “Anatomia do Caos”, Dandara Ferreira, aproximando os espectadores de quem esteve diretamente envolvida na realização da obra.
Cinema, educação e memória
A exibição de “Anatomia do Caos” ganhou significado especial dentro de uma instituição dedicada à Educação de Jovens e Adultos. Com estudantes de diferentes gerações, o CIEJA Professora Rose Mary Frasson trabalha com um público a partir dos 15 anos e sem limite máximo de idade, reunindo trajetórias, experiências e repertórios muito distintos em um mesmo ambiente de aprendizagem.
Professora de uma turma de alfabetização do segundo módulo, Érica Lafrata Espada destacou justamente a presença do audiovisual entre as diferentes linguagens trabalhadas pela escola.
“É muito importante a gente ter aqui cinema de qualidade nacional e documentários com temas tão relevantes quanto esse que nós tivemos hoje. Aqui procuramos trabalhar com múltiplas linguagens, tanto assistir quanto produzir. Arte, artes visuais e cinema. A gente participou do Curta na Escola e chegou à lista de finalistas. Então, costumamos trabalhar com o cinema como uma linguagem importante.”

A professora Elaine Cristina Lopes, que atua na alfabetização nos períodos da tarde e da noite, também ressaltou a importância de iniciativas culturais chegarem à Brasilândia. Sua primeira experiência com o CineB aconteceu durante uma sessão de “O Agente Secreto”, e, desde então, a relação com o projeto se ampliou.
“Eu achei fantástico porque nós estamos aqui na Zona Norte, na Brasilândia. É um lugar que, só de falar que é Brasilândia, já é malvisto. As pessoas acham que vão vir aqui e em cada esquina só vai ter armamento, droga, tudo de ruim. E o exemplo aqui do CIEJA é fundamental, porque você percebe que tem estudantes desde os 15 anos até 80, 90 anos para estudar.”
Para Elaine, a escola exerce também uma função fundamental ao aproximar seus estudantes de experiências culturais que, muitas vezes, estiveram distantes durante boa parte de suas vidas.
“Eles são tão gratos pelo que a escola proporciona. Como professores, a gente tenta planejar e incluir. Se eles não têm acesso à cultura, momentos como o CineB proporcionam esse acesso e despertam para isso. Tem estudante que conheceu pela primeira vez o teatro, que foi a um show, a uma palestra, que começou a ter esse contato. São direitos e muitas vezes são negados porque estão lá do outro lado, estão na Brasilândia, um lugar desconhecido.”
Elaine também agradeceu a continuidade da parceria com o projeto.
“Eu acho muito bacana essa parceria. Só tenho a agradecer, muita gratidão por vocês terem esse olhar tão voltado para esse público. É para onde a cultura realmente tem que ser expandida.”

“A gente não aprende só na sala de aula”
A coordenadora pedagógica Ana Ribeiro Lima Batista chamou atenção para uma característica central da proposta educacional do CIEJA: compreender que a formação dos estudantes ultrapassa os limites da sala de aula.
“O CIEJA é uma escola de jovens e adultos na Brasilândia, então atende pessoas a partir de 15 anos e a gente não tem uma idade limite. O nosso projeto se diferencia das EJAs comuns por conta do horário reduzido e porque a gente funciona de manhã até a noite.”
Ao falar da parceria com o CineB, Ana destacou a cultura como parte do próprio processo educativo.
“Pensando numa parceria com o CineB, ela é extremamente importante. A gente não aprende só na sala de aula, a gente aprende com cultura. Então, ter acesso a vários espaços de cultura ou, como nesse caso, o documentário vir para a escola é muito enriquecedor, porque dialoga diretamente com o nosso trabalho e isso faz muito sentido.”
A temática de “Anatomia do Caos” também despertou uma reflexão pessoal da coordenadora. Ana contou que havia assistido ao documentário antes da sessão e que rever aquele período significava entrar novamente em contato com uma experiência que deixou marcas profundas.
“Para mim foi um momento bastante crítico, porque a pandemia foi traumática. Eu me senti muito desrespeitada. Tive pessoas muito próximas que se foram por conta da pandemia e sofri muito com o isolamento, com o descaso, com preocupações que não eram só da ordem financeira, mas de outras ordens.”
Para ela, revisitar acontecimentos difíceis por meio do cinema também é uma forma de combater o esquecimento e pensar nas escolhas feitas coletivamente para o futuro.
“Cada vez que a gente vai resgatando isso, a gente percebe que temos um péssimo hábito do esquecimento. Quando resgatamos essas histórias, pensamos melhor no que se projeta para o futuro.”

Debate aproxima o público do filme
Depois da exibição, a programação continuou com um debate de perguntas e respostas. O momento permitiu que estudantes, professores e demais participantes compartilhassem impressões e relacionassem as questões apresentadas pelo documentário às próprias experiências.
A participação do público reforçou uma característica das sessões do CineB: a tela não encerra a experiência quando os créditos sobem. A conversa posterior transforma espectadores em participantes e abre espaço para que diferentes leituras sobre uma mesma obra possam circular.
O público também foi convidado a participar da pesquisa de avaliação da sessão por meio de QR Code, ferramenta utilizada pelo projeto para conhecer a percepção dos espectadores sobre as atividades realizadas.
Para encerrar a noite, foram sorteadas duas camisetas do CineB entre os participantes.
Com cerca de 100 pessoas reunidas, a segunda passagem do projeto pelo CIEJA Professora Rose Mary Frasson reafirmou uma parceria em que cinema e educação caminham lado a lado. Em uma escola marcada pela diversidade de idades e trajetórias, “Anatomia do Caos” serviu não apenas como obra audiovisual, mas como ponto de partida para falar de memória, direitos, experiências coletivas e da importância de preservar histórias para compreender o presente e projetar o futuro.



Sobre o CineB
Desde 2007, o projeto já atingiu um público de 96.325 espectadores em mais de 792 sessões gratuitas realizadas em comunidades e universidades de São Paulo. O CineB percorreu cerca de 300 bairros da cidade de São Paulo e 24 cidades fora da capital.
Ao longo destes 19 anos, o projeto criou o Selo CineB do Cinema Brasileiro, com quatro DVDs reunindo 18 curtas-metragens selecionados, além de promover o Prêmio CineB do Cinema Brasileiro, homenageando 257 entidades e 193 diretores.
Até hoje, já foram exibidos 189 longas-metragens e 132 curtas-metragens, além de diversas pré-estreias exclusivas. Durante a pandemia, o CineB também desenvolveu iniciativas como CineB On-line, CineB na Janela e CineB Autorama, garantindo acesso ao cinema mesmo durante o período de isolamento social.
Veja as fotos da sessão:












































































































