Sessão exibida em 24/09/2026
Fotos e texto: Thaís Nozue

Cerca de 80 pessoas participaram, na noite de 24 de setembro, de mais uma edição do CineB Universidade, realizada no auditório da Universidade São Judas – Unidade Butantã. A sessão apresentou o documentário “Anatomia do Caos” a estudantes, professores e convidados e transformou a sala de cinema em um espaço de reflexão sobre comunicação, memória, história recente do Brasil e o papel social dos futuros profissionais da área.
A atividade marcou o retorno do CineB à Universidade São Judas, que já havia recebido anteriormente uma ação do projeto. A parceria reforça uma das frentes de atuação do CineB: aproximar a produção audiovisual brasileira do ambiente acadêmico e promover encontros nos quais a exibição de um filme possa continuar por meio da análise, da troca de experiências e do debate.
A sessão anterior realizada na Universidade São Judas pode ser relembrada aqui: CineB na Universidade São Judas.
Estudantes de Cinema, Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas, Rádio e TV e de outros cursos foram convidados para a atividade. A diversidade de formações tornou a sessão especialmente significativa: além de discutir o conteúdo de “Anatomia do Caos”, o público pôde observar o documentário como produto audiovisual, analisando escolhas narrativas, imagens, depoimentos, edição e a responsabilidade envolvida na construção de registros sobre acontecimentos históricos.
Cinema brasileiro dentro da universidade
A abertura foi realizada por Cidálio Vieira Santos, coordenador do CineB, pela professora Melyssa Pinheiro da Silva, coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade São Judas e pelo professor Vicente Dard.

Antes da exibição, o público também acompanhou depoimentos gravados relacionados ao projeto e ao filme, entre eles uma mensagem da diretora de “Anatomia do Caos”, Dandara Ferreira.
Para Melyssa, a presença do CineB na universidade amplia o acesso ao cinema brasileiro e oferece aos estudantes uma oportunidade de olhar para a própria sociedade por meio do audiovisual.
“O CineB eu acho que é um projeto importantíssimo. Aqui a gente está na universidade, mas, para a comunidade, acho que toda vez que você democratiza algo a que nem todas as pessoas têm acesso é fundamental. O CineB traz o cinema brasileiro para as comunidades, para a universidade. Aqui, falando dentro da universidade, é o momento que a gente olha para dentro, olha para si, conhece o nosso povo, conhece a nossa história e, com isso, cada vez mais consegue se valorizar também como cidadão e como ser humano.”
A coordenadora ressaltou ainda a importância específica de obras documentais na formação dos futuros jornalistas.
“A base do jornalismo é conhecer a história, conhecer a vida. Então é fundamental que a gente consiga trazer documentários que demonstrem como é a realidade e o que acontece. Sobretudo quando a gente pensa a produção de um documentário, com os alunos de Jornalismo a gente consegue trabalhar a observação, o olhar, o cuidado e a criação dessa narrativa documental tão importante para o trabalho do jornalista.”

“Comunicar é construir memória”
Depois da exibição, o filme deixou a tela e continuou nas falas do auditório.
Professores e estudantes participaram de um debate que foi além das questões abordadas por “Anatomia do Caos”. A própria construção do documentário passou a ser analisada: de que maneira acontecimentos históricos são transformados em narrativa? Como selecionar imagens e depoimentos? Qual é a responsabilidade de quem registra o presente sabendo que esse material poderá servir como memória no futuro?
Professor dos cursos de Comunicação da Universidade São Judas, Vicente Darde destacou exatamente essa dimensão do trabalho.
“A nossa sessão de hoje com o documentário ‘Anatomia do Caos’ foi muito importante para despertar nos nossos estudantes de Comunicação a consciência de que um produto de comunicação como esse, um documentário, é muito importante para resgatar a memória do Brasil, uma memória recente de 2021, de um caos que a gente viveu no combate à pandemia no Brasil.”
O professor também chamou atenção para a possibilidade de os estudantes analisarem simultaneamente conteúdo e linguagem.
“Os estudantes, ao assistirem a um documentário produzido por uma diretora que é a Dandara, aprendem não só a linguagem que foi aplicada aqui na construção desse documentário, mas discutem também a relevância desse produto comunicacional para a formação deles e para a sociedade. Eles aprendem por meio da técnica que foi aplicada na produção desse documentário, mas também sobre a discussão do tema, a profundidade, a contextualização, a escolha das imagens, a escolha dos depoimentos. Tudo isso reforça o compromisso da comunicação com a sociedade.”

Durante o debate, uma ideia sintetizou parte importante da conversa da noite: comunicar também é construir memória.
Para os estudantes presentes, observar “Anatomia do Caos” dessa perspectiva significou perceber que filmes, reportagens, campanhas, fotografias, programas, podcasts e outras produções realizadas por profissionais da Comunicação não registram apenas aquilo que está acontecendo naquele instante. Esses materiais também ajudam a formar o acervo por meio do qual outras pessoas poderão conhecer e interpretar uma época.
O debate recuperou ainda o contexto da CPI da Pandemia, instalada pelo Senado em 2021. A comissão funcionou durante quase seis meses e seu relatório final foi aprovado em 26 de outubro daquele ano, sendo posteriormente encaminhado a diferentes órgãos responsáveis pela análise e eventual responsabilização nas respectivas esferas.
Um filme que provoca perguntas
As manifestações do público mostraram que o documentário também despertou lembranças pessoais relacionadas à pandemia e discussões sobre cidadania, participação política e responsabilidade coletiva.
Uma estudante de Psicologia relatou ter perdido o padrinho para a Covid-19 e afirmou que assistir ao filme trouxe novamente questões que, para muitas famílias, não pertencem apenas aos registros históricos, mas à própria memória afetiva.
Outros estudantes falaram sobre a importância de compreender a política como parte da vida cotidiana e defenderam que jovens busquem informação, acompanhem o debate público e façam suas escolhas eleitorais de maneira consciente.
As intervenções também mostraram diferentes maneiras de receber a obra. Houve quem destacasse a necessidade de o documentário alcançar pessoas que tiveram pouco contato com informações sobre aquele período e quem concentrasse sua análise na responsabilidade dos profissionais de Comunicação em organizar fatos, documentos e testemunhos para torná-los acessíveis à sociedade.
O debate dialogou diretamente com a própria natureza da CPI retratada no documentário. Comissões parlamentares de inquérito investigam fatos e podem encaminhar suas conclusões às autoridades competentes, mas não exercem, por si mesmas, a função de condenar criminalmente os investigados. No caso da CPI da Pandemia, o relatório aprovado foi encaminhado, entre outros órgãos, à Procuradoria-Geral da República, ao Supremo Tribunal Federal, à Polícia Federal, ao Tribunal de Contas da União e a Ministérios Públicos.








Uma sessão para assistir — e também aprender a assistir
Por acontecer dentro de uma universidade e reunir especialmente estudantes ligados à Comunicação, a experiência proporcionada pelo CineB ganhou outra camada.
A professora Melyssa chamou a atenção dos alunos para a construção narrativa do filme e para a possibilidade de observar elementos relacionados às disciplinas cursadas na universidade.
Turmas que estudam narrativas, produção transmídia e narrativas documentais puderam perceber como a obra organiza acontecimentos, estabelece uma linha narrativa, intercala depoimentos, documentos e imagens e cria momentos de pausa e reflexão.
A proposta foi incentivar um olhar que não se limite ao tema apresentado na tela.
Assistir criticamente também significa perguntar quem conta aquela história, quais recursos foram escolhidos para contá-la, quais fontes aparecem, como as imagens são organizadas e que efeito cada decisão narrativa produz no espectador.
Nesse sentido, a sessão aproximou teoria e prática. O documentário tornou-se simultaneamente obra cinematográfica, registro histórico, objeto de análise e ponto de partida para uma discussão sobre o trabalho dos próprios estudantes que futuramente estarão produzindo informação e conteúdo audiovisual.




CineB Universidade amplia espaço para o cinema nacional
Ao levar “Anatomia do Caos” à Universidade São Judas, o CineB Universidade reforçou uma frente que complementa as sessões realizadas pelo projeto em comunidades, escolas e outros espaços da cidade.
Se nas comunidades o cinema itinerante ajuda a diminuir barreiras geográficas e econômicas de acesso à produção nacional, no ambiente universitário ele também permite aproximar estudantes de obras brasileiras e de profissionais envolvidos na realização audiovisual, estimulando formação de público e análise crítica.
Para Melyssa Pinheiro, essa combinação é essencial.
“O CineB traz o cinema brasileiro para as comunidades, para a universidade. É o momento em que a gente olha para dentro, olha para si, conhece o nosso povo, conhece a nossa história.”
A noite terminou com a participação do público na pesquisa de avaliação da sessão, realizada por QR Code, e com o sorteio de camisetas do CineB.


Depois de cerca de 80 pessoas reunidas para assistir e discutir uma obra brasileira, a experiência na São Judas deixou uma mensagem especialmente pertinente para quem está se formando para trabalhar com informação, imagens, narrativas e histórias: comunicar não é apenas registrar o presente. É também participar da construção da memória que ficará dele.

Sobre o CineB
Desde 2007, o projeto já atingiu um público de 96.325 espectadores em mais de 792 sessões gratuitas realizadas em comunidades e universidades de São Paulo. O CineB percorreu cerca de 300 bairros da cidade de São Paulo e 24 cidades fora da capital.
Ao longo destes 19 anos, o projeto criou o Selo CineB do Cinema Brasileiro, com quatro DVDs reunindo 18 curtas-metragens selecionados, além de promover o Prêmio CineB do Cinema Brasileiro, homenageando 257 entidades e 193 diretores.
Até hoje, já foram exibidos 189 longas-metragens e 132 curtas-metragens, além de diversas pré-estreias exclusivas. Durante a pandemia, o CineB também desenvolveu iniciativas como CineB On-line, CineB na Janela e CineB Autorama, garantindo acesso ao cinema mesmo durante o período de isolamento social.
As fotos da sessão estão no ar!






































































































































